segunda-feira, 29 de março de 2010

Quem morre, só pensa nele mesmo! Turma egoista!

Até pra falar sobre a morte a gente precisa ter humor. Morrer é tão sem graça, tão sem propósito e tão fora de hora, sempre, que ninguém acha graça.

Hoje me lembrei de um jornalista brasileiro, que morreu de AIDS nos anos 90. Ele já tava bem fraco, quando vi uma entrevista dele na TV junto com o namorado, e nunca mais me esqueci. Muito boa.

Os dois falavam, o mais naturalmente possível, sobre a doença - que na época era fatal - sobre os planos do momento e os planos daquele que ia ficar. Muito interessante!

O que eu mais gostei, numa certa altura da entrevista, foi quando surgiu um assunto sobre carnaval e o que fazer naqueles quatro dias. Eles disseram que eram loucos pela festa, adoravam e não perdiam um só desfile das escolas do Rio. Só que viam pela TV, quiném eu. Também adoro ver os desfiles pela TV. Choro de emoção todos os anos quiném uma idiota.

Então, o que tava em primeiro lugar na fila pra morrer falou : "o que mais me deixa triste, é não poder mais ver os desfiles que tanto amo. Há anos a gente vê junto, convida os amigos, bebemos, comemos e nos divertimos tanto! Nessa época, por exemplo, já estamos com o CD e as letras dos sambas-enredos pra decorar".

Não me lembro de quem tava fazendo a entrevista, mas rolou aquele momento-emoção, que foi logo cortado pelo que ainda não tinha entrado (pelo menos oficialmente) na fila pra morrer. Ele disse: "pois eu acho muito egoísmo, da sua parte, ficar chorando porque não vai ver mais os desfiles. Você já parou pra pensar em mim? Pensou nos seus amigos, no próximo carnaval? Já imaginou a merda que vai ser assistir sozinho, sem você do meu lado, sem os seus comentários, sem a comida boa que você faz?" e foi descascando a moranga no futuro-defunto, até ele perder o rumo de vez. Quem vai morrer, se esquece que vai morrer e fim. Adeus viola, muito prazer, foi uma honra, obrigado e adeus. E quem quiser que conte outra!
O pobre quase pediu desculpas por ter sido tão egoísta, mas foi bom, porque caiu em si. Não tinha parado pra pensar no outro lado da moeda.
Não me lembro de como terminou essa conversa, porque a melhor parte eu já tinha registrado.

Estou convivendo há dois meses (e acompanhando a peleja da doença há 8 anos) com uma pessoa que tá no primeiro lugar da fila, prontim pra dar o último passo, mas empatando a fila porque não quer largar a liderança nem a poder de porrete. Cismou de ficar na pole-position forever. A última desculpa é que quer fazer 80 anos - o que vai rolar depois de amanhã.

No que ele faz muito bem, porque o tanto que temos nos divertido e rido, não tá no mapa. Tenho anotado coisas e causus pra contar mais pra frente, quando esses causus ficarem mais engraçados do que já são.

Quando a dor desaparecer e só ficar coisa boa pra eu me lembrar.

6 comentários:

Anônimo disse...

Anonimo eu,MHelena.Saudades.Pensei q o paciente estava fora do ar.Será q entendi mal?

Anônimo disse...

Ta ainda nao...continua resistindo.
bjins

José Luiz Foureaux de Souza Júnior disse...

Pois é... primeiro tem a danada da dor... Mas passa, né... você sabe que passa...
;-)

Ana disse...

Chorei demais agora. Você é mesmo fora de série.

Anônimo disse...

Demora um tico mas passa sim Juníssimo...c'est la vie, né?
bjins

Anônimo disse...

Pois é Ana, é o normal da vida, mas a gente não vai se acostumar jamais! Pelo menos enquanto a gente não souber se tem um lado de lá...rs
bjins

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